A inteligência artificial no limiar de Matrix


Célio Roberto Pereira

E se os computadores dominassem o mundo? Para que viveriam?
Para que nós vivemos?
Talvez sejamos computadores.


A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO LIMIAR DE MATRIX


Tank: Prontinho amigo. Desjejum de campeão.
Mouse: Se fechar os olhos, vai perceber que está comendo ovos.
Apoc: Ou uma tigela de catarro.
Mouse: Sabe o que isso me lembra? Trigo gostoso, você já comeu trigo gostoso?
Switch: Não, mas tecnicamente nem você.
Mouse: Mas é isto que falo tecnicamente. Porque você se pergunta, como as máquinas sabem qual era o sabor do trigo gostoso? Elas podem ter errado. Talvez o verdadeiro trigo gostoso, tivesse gosto de aveia ou atum. Você fica se perguntando: frango, por exemplo. Talvez elas não soubessem o gosto do frango, por isso talvez o frango tenha qualquer gosto. E talvez ela...
Apoc: Cale-se.

O diálogo acima se refere a um trecho do filme The Matrix, uma produção cinematográfica norte-americana e australiana de 1999, dos gêneros ação e ficção científica, dirigido pelos irmãos Wachowski e protagonizado por Keanu Reeves e Laurence Fishburne. Tal produção em questão de cinema revolucionou as técnicas até então utilizadas em filmes de ação e abriu espaço para uma série de filmes que questionam a realidade humana ou supõe à ela um caráter totalmente fictício.

Essa possibilidade levantada pelo filme Matrix, do homem viver em uma realidade simulada onde todos estão adormecidos e conectados a um programa de computador não é a única parte intrigante do filme se levarmos em conta que toda essa “pseudo-realidade” é levada a cabo por máquinas que no futuro de Matrix controlam a humanidade e os subjugam em uma espécie de prisão que os próprios seres humanos desconhecem.

A conversa que faz parte do filme e que foi descrita acima se refere à indagação de homens libertos do Matrix acerca do entendimento das máquinas quanto aos sabores dos alimentos, talvez seja essa indagação que explique o sucesso do filme que custou 65 milhões de dólares a arrecadou mais de 456 milhões. A dúvidas do ser humano e a constante insatisfação com o limitado entendimento que ele tem sobre a sua própria natureza, faz brotar sobre esse gênero de filme um interesse sem igual, do mesmo tipo que arrebatou filósofos e cientistas acerca da Inteligência Artificial na tentativa de simular o comportamento humano ou algo parecido com esse comportamento fora de nossos corpos.

Tal tentativa se mostrou muito otimista e as pesquisas desenvolvidas nesse sentido, se não tiveram um resultado definitivo, ao menos marcaram uma analogia que será difícil de ser desconstruida: a semelhança da operação de nossos com os computadores. Muitos cientistas apostam nessas semelhanças para o desenvolvimento de Inteligência Artificial, o cinema foi mais além a atribuiu a essas semelhanças em um futuro muito próximo, a própria derrocado da humanidade sendo subjulgada por suas próprias criaturas, as máquinas.

Essa afirmação da indústria cinematográfica vai além de qualquer pesquisa realizada no campo da disciplina Inteligência Artificial e mostra de forma fictícia e especulativa uma realidade futuro, não entanto, não podemos negar a importância do gêneros de ficção cientifica para compreendermos a nossa própria visão do real e de como lidamos com as projeções anunciadas pela ciência.

Atribuir a uma máquina a capacidade de fazer cálculos não é a mesma coisa que dizer que ela possa sentir raiva de alguém ou que ela possua objetivos específicos acerca de sua própria existência, como por exemplo, dominar os seres humanos para garantir a sobrevivência das máquinas.

Parece que quando falamos em inteligência artificial esperamos mais do que uma máquina que possa vencer um humano em um jogo de xadrez, a questão não esta na superação do homem pela máquina nesse sentido, capacidades extraordinárias foram desenvolvidas em máquinas e que muito superam as limitações físicas impostas ao homem, essa não parece ser mais a questão, a dúvida parece persistir no que pode a máquina fazer ou não com suas potencialidades.

A palavra para este enigma é Intencionalidade, em Matrix as máquinas possuem intenções, objetivos e ações que independem dos seres humanos, no entanto, mesmo em nesse filme de ficção as ações e objetivos das máquinas não passam de um reflexo pálido das próprias ações humanas, o próprio mundo criado pelas maquinas, a Matrix, é uma reprodução do mundo humano.

Mesmo aprisionados em uma prisão mental, os homens parecem ainda dominar as máquinas no sentido do valor que é mais caro a eles: a liberdade. Como se em uma prisão que houvesse tudo para se fazer, o único que não pudesse fazer nada fosse quem vigiasse a prisão, sem viver, sem sentir, sem amar, sem odiar, um vigia sempre a postos para manter a ordem, mesmo não fazendo parte dela e ao mesmo tempo tendo a sua existência de sentinela atrelada a própria prisão. Assim são as maquinas relatadas em Matrix, dependentes do homem mesmo no campo em que supostamente seriam superiores, ou seja, na realidade virtual criada por elas.

Talvez a realidade futura estipulada por Matrix nunca venha a se concretizar, pode ser que nem mesmo conseguiremos criar máquinas todas de intencionalidade, porém tantos os avanços da ciência no que diz respeito à inteligência artificial como as projeções criadas pela ficção científica auxiliaram a filosofia a desencadear novos olhares sobre problemas antigos da própria filosofia como o problema sobre a mente e corpo, tais problemas não se resolveram e nem há indícios de que se resolverão em um futuro próximo, no entanto, as articulações entre ciência, filosofia e a ficção ajudam a propor novos modelos explicativos para a realidade da natureza humana e nos desprender de paradigmas adotados pela filosofia que de tão especulativos ser tornaram dogmáticos e difíceis de serem abandonados pela humanidade, muitos dos obstáculos desse exercício de desprendimento está na ordem do homem de não conseguir atribuir a outra criatura os atributos de inteligência que até então foram somente a ele atribuídos.

Essa barreira mantida por muitos filósofos foi ultrapassada pelo cinema e pela literatura e garantiu a inteligência artificial, embora sendo ainda no campo fictício o direito a intencionalidade, mesmo que esse direito se restrinja a saber o sabor que tem o frango para uma máquina, não para os homens.

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