Entre o Brasil e a África: abordagens sobre a cultura Afro-Brasileira

Nas vésperas do Dia da Consciência Negra que será comemorado amanhã (20/11) resolvi postar um artigo que fale sobre as relações históricas que temos com a cultura Afro-Brasileira.


Entre o Brasil e a África: abordagens sobre a cultura Afro-Brasileira

Célio Roberto Pereira


O que falar sobre cultura Afro-Brasileira que não seja sobre a escravidão? Tal pergunta pode causar estranheza, mas demonstra exatamente a compreensão do papel do negro na sociedade brasileira e sua trajetória histórica da África até o Brasil, até mesmo este artigo que pretende levar ao leitor um mínimo de esclarecimento sobre o tema, carrega em suas palavras muito dos preconceitos historicamente estabelecidos, mesmo quando já nos referimos a África como uma unidade, sem particularidades regionais e culturais ou quando ao introduzirmos o tema tivemos que iniciar escrevendo sobre escravidão.

Tratar o continente africano como diz Serrano (Serrano, et al; 2007) despojado de particularismo é esquecer a raiz histórica do negro, negando portanto o entendimento de qualquer aspecto de sua história, inclusive o cultural, essa negação tem levado a criação de diversos estereótipos quanto as civilizações africanas que impregnam a mentalidade das pessoas deste lado do atlântico, como se refere Serrano dizendo que os europeus reduziram os africanos à condição de “tribos” privadas de identidade cultural, mais que isso negaram os créditos de qualquer habilidade tecnológica e intelectual desenvolvida no continente africano, classificando povos com forte tradição oral como analfabetos, lhes impondo dificuldades que só existiam na mente dos europeus , principalmente no que dizia a respeito da prática do comércio e outras atividades que envolviam uma estruturação mais concreta social e política. 

No entanto, essa visão estereotipada do negro na sociedade brasileira e a deturpação de sua raiz histórica encontraram no Brasil, mesmo durante o período colonial e imperial uma grande resistência, a qual será analisada e um ponto mais adiante porque de imediato é importante ressaltar que essa visão estereotipada tem agravantes a partir do século XIX quando segundo Viana, começa a se tentar hierarquizar a sociedade através da noção de “raça”, incluindo e excluindo determinados grupos étnicos da construção aqui no Brasil da idéia de nação e identidade nacional, diversos cientistas e teóricos da época viam não somente no negro como nos mestiços, ampliando o preconceito a todos aqueles que tinham uma “mistura” de “raças” e os tomando como elemento causador do enfraquecimento da sociedade brasileira em todos os seus aspectos, essa visão bestializada se concretizava como sendo a maioria da população, essa visão com o tempo foi atenuada com a esperança do branqueamento da população, como nos diz Viana, acreditava-se ser o processo natural dentro dessa “mestiçagem”. Tal visão da população mestiça tem uma mudança considerável com os debates ocorridos durante o século XX, colocando em outra posição o negro e o mestiço, como na obra de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala que, expõem nos dois extremos da sociedade colonial o negro e o senhor de engenho, porém fazendo um debate maior sobre o papel do mestiço, seja nas relações de trabalho, sexuais e nas trocas culturais, evidenciando desde já não somente uma relação “racial” ou cultural entre a sociedade do Brasil colonial e sim como nos diz Viana (p.42, 2007) “um movimento hierárquico perpassado por relações de poder, capazes de influenciar nas relações de indivíduos” dinamizando as expressões da esfera social do Brasil escravista.

Nesse mesmo tocante, ainda no Brasil colonial, percebemos que a distinção do negro quanto elemento étnico e pertencendo a um grupo cultural, era em certa medida determinada pelos não africanos, tal distinção não partia de uma afirmação cultural e sim de uma imposição dos que viam no negro africano certas características que possibilitavam reuni-los sob denominações que eles não conheciam, eram suas aptidões físicas, seus traços de comportamento, a região onde foram capturados que determinavam o que eles eram aqui no Brasil, seja em Minas Gerais ou em outras regiões, a não percepção das singularidades dos povos que aqui foram trazidos criava todo um aparato de significações que não condiziam com a realidade cultural dos africanos e sim a lógica do tráfico negreiro e seu desenrolar nas Américas, assim Rezende (in PAIVA et al; p. 345, 2008) nos diz que “as nações africanas foram inventadas, imaginadas, ou mesmo, descobertas [...].” Os não africanos imputavam origens e representações aos africanos” na tentativa de reduzi-los ao que eles “valem” na comparação com os seus conterrâneos da África.

Rezende (in PAIVA et al; 2008) ainda nos fala que apesar dessa tentativa de “reduzir o outro”, as identidades étnicas dos africanos ainda sobreviveram, em alguns traços neste lado do atlântico que eram perceptíveis ao restante da população, porém somente faziam sentido quando inseridos em determinado grupo étnico, é o caso de muitas manifestações culturais como as línguas e as escarificações que passavam desapercebidas pela lógica não africana, no entanto, tiveram importante papel na construção que chamamos de identidades históricas. Porém, não podemos deixar de ressaltar que nem todas as manifestações culturais africanas eram impermeáveis e aceitas no novo mundo, Amantino (2008) nos lembra que muitas práticas culturais africanas eram tidas como satânicas, demoníacas, ressaltando o estereótipo de se construía principalmente sobre as práticas religiosas dos negros e que muitas dessas práticas e de outros elementos culturais sobrevieram no Brasil principalmente por causa da preocupação da estrutura escravista em não negar totalmente o espaço cultural do negro, suas manifestações religiosas, não por questão de respeito e sim pela própria lógica escravista pois para Amantino (in PAIVA et al; p.259, 2008)


“Ao mesmo tempo que as reuniões dos cativos eram momentos de sociabilização e de diminuição de tensões, eram também de arranjos e de reafirmação dos valores africanos ou de valores já adaptados a uma nova cultura negra que os senhores gostariam de ver eliminados.”


Essa “negociação” do espaço destinado às manifestações culturais dos cativos demonstra não somente a resistência desses elementos culturais, mas também a percepção de próprio escravo no contexto em que ele está inserido, não é a sua denominação que aqui recebeu que vai ditar seu comportamento cultural, a dificuldade de se agrupar todos os elementos culturais que existiam na África, fez surgir novos elementos que se incorporaram, se misturaram, às vezes passaram desapercebidos, outras tiveram que ser aceitos ou quando suprimidos, eram praticados as escondidas.

Essa supressão que nos referimos no texto, seja pelo preconceito, seja pelo medo do que poderia acarretar as manifestações culturais dos cativos, vem em grande parte da tentativa de evangelização dos negros e da redução de suas práticas religiosas , o que nos remete ao imaginário religioso da época escravista em questão e da tentativa como nos diz Dias (in PAIVA et al; p.294, 2008) de justificar a escravidão. Tal evangelização com esse pressuposto acarretou muitos querelas entre a Igreja na Europa e seus representantes no Brasil, havia pouca vontade em se cumprir o que se determina as bulas da Igreja, pois ao se tornar o cativo cristão em todos os aspectos era entrar em conflito com a própria estrutura da escravidão, eram precisos caminhos alternativos que permitissem a existência da escravidão sem entrar em conflito com o que determinava a Igreja, muitas vezes tais caminhos, eram encontrados simplesmente na omissão de algumas práticas religiosas que deviam ser cumpridas com os cativos, como o batismo por exemplo, abrindo brechas para a existência da práticas religiosas pelos escravos “longe” dos olhos da Igreja que mostrava-se conivente com tais ações, pois em certa medida eram elas que permitam alguma harmonia entre o sistema escravistas e o poder clerical.

Um outro caminho de se lidar com as intempéries das discussões entre os escravistas e a Igreja era esta criar documentos que legitimassem a prática da escravidão sem negar algumas praticas católicas aos cativos, como no caso do matrimônio que fora da lógica escravista garantia ao homem que se casava, de acordo com o direito canônico romano a condição de Pater Famílias, de senhor da sua própria família, algo totalmente contraditório dentro da escravidão que eram resolvido, estabelecendo documentos que negavam essa condição ao escravo e ao mesmo tempo a vigia sob às praticas religiosas dos africanos se reduzia como mecanismo atenuador das relações entre os cativos, a Igreja e os donos de escravos.

Essas relações mantidas entre todas as sociedades escravistas e aqui tratadas diz respeito principalmente ao Brasil, é importante ressaltar a diferença explicitada por Ira (p. 21, 2006) no que tange as sociedades com escravos e as sociedades escravistas:


“Nas sociedades escravistas, diferentemente, a escravidão estava no centro da produção econômica, e a relação senhor-escravo fornecia o modelo para todas as relações sociais: marido e mulher, pai e filho, empregado e empregada. Desde as mais estreitas ligações entre homens e mulheres até as conexões mais públicas entre governante e governado, todas as relações mimetizavam a escravidão[...].”


É por este viés que temos que entender como se estruturou todo o pensamento não só sobre a cultura africana mas a tudo que se refere ao mundo negro, esta lógica de dominação, preconceito e estereótipos da figura do negro que ditou as regras do pensamento e do imaginário dos brasileiros sobrevive até hoje, quando falamos de África, automaticamente associamos a escravidão ou a tribos desorganizadas, reduzimos nosso conhecimento referente a esse continente à escravidão, tratamos sempre desse assunto por este viés, e os conduzimos historicamente até a abolição em 1888, como se neste ano se esgotasse o tema e suas abordagens, não podemos esquecer que o negro seja livre seja cativo não desaparece após a abolição.

O importante é não esquecer que no contexto social em que vivemos hoje há muito de herança ao se tratar de África, seja pelas manifestações culturais que foram trazidas para esse lado do atlântico, seja pelas feridas e preconceitos deixados pela escravidão, a sociedade escravista não criou o preconceito de raça, no entanto, a pós-abolicionista o instaurou e legitimou seu discurso ora por métodos científicos, ora por práticas enraizadas na sociedade.

A inserção do negro e dos elementos culturais Afro-Brasileiros tem se dado a passos díspares na sociedade à medida que temos traços Afro-Brasileiros tomados como legítimos representantes do que é este Brasil, a uma negação do espaço do negro em algumas esferas sociais legitimada pelo mito de democracia racial e pelo discurso do preconceito às avessas. Para se afirmar cultural e socialmente o negro não necessita mais se esconder, porém, ainda tem de negociar essas práticas que por muitos anos lhes foram negadas.

O primeiro passo para inserir os valores culturais dessa etnia é ver a África, não negando a escravidão, mas indo muito além, pois assim como os Portugueses os povos africanos já conheciam a escravidão, porém conheciam também a liberdade das manifestações culturais, o comércio, a escrita, organizações políticas e estruturas urbanas e religiosas complexas, o que veio daquele continente foi muito mais que força de trabalho, um conjunto de práticas e pensamentos que modificaram o Brasil Colonial e estruturam a sociedade moldando o Brasil que se mostra hoje, não em termos de raça mas em termos de cultura, política e religião, esse processo ainda está em construção no debate hoje travado sob este novo enfoque que é a cultura Afro-Brasileira.


REFERÊNCIAS

IRA, Berlin. Gerações de cativeiro. Trad. Júlio Castañon. Rio de Janeiro: Record, 2006.

PAIVA, Eduardo França. IVO, Isnara Pereira, org. Escravidão Mestiçagem e histórias comparadas. São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: PPGH – UFMG; Vitória da Conquista: Edunesp, 2008.

SERRANO, Carlos; WALDMAN, Maurício. Memória D’África: a temática africana em sala de aula. São Paulo: Cortez Editora, 2007.

VIANA, Larissa. O idioma da mestiçagem – as irmandades de pardos na américa portuguesa. São Paulo: UNICAMP, 2007

2 comentários:

Mara Farias disse...

Sou indigena e me auto afirmo negra,pq o mais importante é sabermos dizer quem somos!
@AutoProtecao

Célio Roberto Pereira disse...

E não deixar que os outros esqueçam quem somos!

Postar um comentário