Pergunta-se pela escrita da filosofia no Ensino Médio

Há tempos queria escrever este post, mas a minha posição confusa sobre o que eu estava proposto a escrever, por alguns meses conseguiu me deter.

Digo que estou confuso, porque ainda não consegui definir o que é a filosofia no Brasil hoje, mais precisamente, o que é a filosofia nos currículos do Ensino Médio, retornando às salas de aula e tentando retomar um espaço que tenho lá minhas dúvidas se um dia chegou a possuí-lo.

Se eu perguntasse aos meus amigos bacharéis em filosofia, o que eles acham da filosofia no Ensino Médio, muitos me diriam nem considerar o que se passa na escola como uma verdadeira filosofia. Diante desse posicionamento, certamente seriam massacrados pela mídia e pela opinião pública como conservadores e antiprogressistas, muita gente iria se esconder atrás dos textos da Marilena Chauí para defender a filosofia no Ensino Médio, sem ao menos, se dar o trabalho de compreender o que se passa na realidade educacional do país, não há um esforço claro para a compreensão da totalidade, tão reivindicada pela filosofia.

Como disse no início desse texto, eu me encaixo entre aqueles que na tentativa da compreensão encontram-se confusos, o que já considero um passo, pois toda contradição carrega consigo uma possível síntese da realidade, uma espécie de esperança no futuro sem ao menos sabermos realmente o porquê dela.

É essa tentativa de definir o que é a filosofia no Brasil; e como ela vai se adequar às diversas realidades das escolas brasileiras que vai construindo nossa própria escrita à cerca da filosofia, é esse trajeto de negar ou afirmar o que queremos para os nossos alunos que nos mostra a nossa produção em filosofia.

Essa palavra "filosofia" esta na moda, nas escolas, nas universidades, nos debates sobre educação, ela sempre está presente, mas na maioria das vezes fica difícil compreender o que as pessoas querem conceituar como filosofia, o termo se esvaziou, tornou-se banal, assim como a discussão acerca do que é a nossa filosofia no Ensino Médio.

Quem dera se fosse simples assim, recolocar uma disciplina, definir conteúdos e nunca mais precisar discutir sobre o assunto, debater, escrever algo de qualidade sobre, ou, ao menos se perguntar o que estão escrevendo dele, é como um velho amigo que há tempos não vemos e quando há um encontro com ele; não dizemos simplesmente "olá", queremos saber da sua vida, do passado, do que andou fazendo e o que pretende fazer. Assim é com a filosofia, não podemos dizer simplesmente "olá" para ela na grade curricular e nos posicionarmos como se ela estivesse sempre lá, é preciso diálogo, escrita.

A nossa indiferença acerca da filosofia e de sua importância na educação pode ser resumida nas palavras do poeta francês René Char, citado por Hannah Arednt: “notre héritage n’est précédé d’aucun testament” (“Nossa herança nos foi deixada sem nenhum testamento”). Esse é exatamente o caso da filosofia no Brasil, muito se fala da sua importância, mas poucos sabem o que ela realmente é, e, conseqüentemente do que ela é capaz.

Só valorizamos aquilo que perdemos e com muito custo recuperamos, no entanto, para as gerações que se seguem, o já conquistado não tem valor e aos poucos perde sua identidade e se esvaí, misturando-se na turbulência do pensamento comum que no caso da filosofia guarda um lugar especial: o esquecimento.


Referências

ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. Trad. Mauro W. Barbosa de Almeida. São Paulo: Perspectiva, 1997

2 comentários:

Célia Costa (Celly) disse...

Oi Célio ! Encontrei seu blog por acaso, pesquisando sobre livros e gostaria de deixar meus parabéns pelo seu espaço.
Já está nos meus favoritos.
Um abraço,
Célia

Célio Roberto Pereira disse...

Esses motores de busca ultimamente andam me trazendo algumas gratas surpresas, como a sua visita, por exemplo. Que bom que você chegou aqui e tomara que volte sempre!

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