O mito da democracia

Este ano é ano de eleições, mais uma vez a sociedade se prepara para criticar e ridicularizar a política transformando todo nosso processo eleitoral em um grande circo.

No entanto, contraditoriamente, muitos irão se gabar de morar em um país democrático, sem mesmo saber o que essa afirmação realmente implica.

Quando os gregos antigos instituíram o regime democrático em Atenas, esse sistema de governo não abrangia todas as pessoas, excluindo da participação política mulheres, escravos, servos e estrangeiros, era um regime limitado aos nobres cidadãos, não era representativo, todos tinham voz direta e ativa. O cidadão sabia o que era ser cidadão, assim com o escravo sabia porque era marginalizado das decisões políticas, por exemplo. A democracia era um regime elitista e nem todos achavam-na a melhor forma de governo, no entanto havia uma clareza peculiar na forma de como ela se estabelecia em Atenas.
 
Na modernidade ocidental, após um longo período de monarquias, a democracia retornou a cena política com uma nova roupagem, absorvendo conceitos como os do direito natural de igualdade dos homens, de ampla difusão principalmente após a Revolução Francesa. A democracia já não era a mesma dos gregos antigos, os direitos políticos agora se estabeleciam a todos os homens e mais tarde a todas as mulheres também, independente da posição social que ocupavam.

A igualdade política foi a bandeira de muito países, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, muitos deles encontraram na democracia uma forma de convocar o povo a sufocar as ditaduras que se estabeleceram em várias regiões do planeta, como na América, por exemplo.

Nesses países se instaurou um regime democrático representativo no qual o "povo" delega poderes aos seus representantes eleitos pelo voto direto, não há voz ativa do cidadão e nem um compromisso do mesmo com o regime democrático. A representatividade transformou a democracia em um regime subjetivo e irresponsável, tanto da parte dos representantes como pela parte dos representados, a democracia se reduziu apenas a um discurso onde todos dizem participar de uma ação política em prol de um bem social comum.

Na prática não é isso que ocorre, não há clareza nos papéis desempenhados por cada um nesse regime,  há pouco entendimento das massas do que é ser cidadão, não são raras as vezes que cidadania e democracia se confundem, as duas parecem ser sinônimas e no Brasil constantemente representam tudo que se pode ter de direitos sem mencionar nada de deveres e responsabilidades, o dever sempre está ligado ao representante e nunca ao representado.

O que quero dizer aqui é que enchemos o peito ao dizer que fazemos parte de um regime democrático sem ao menos saber o que isso representa na prática. Na Grécia Antiga, todo cidadão sabia exatamente seu papel dentro do regime, no Brasil nem conseguimos esclarecer as massas do que é ser cidadão, quem dera dizer ao povo qual é a lógica de funcionamento da democracia.

Nesse sentido, a maioria da população está inserida em um sistema político que ela não compreende, adoto aqui um exemplo, ainda que manco, muito válido, em um lugar onde há ovelhas e lobos e os lobos sabem se comportar como ovelhas, tudo parece ser um pacífico rebanho, no entanto, os lobos sabem que não são ovelhas e tem absoluta certeza que devorarão suas companheiras de campo, as ovelhas não sabem se comportar como lobos nem que a elas fosse dada a oportunidade, serão um dia devoradas sem compreender o que realmente aconteceu.

Não digo que não se pode ter um regime democrático representativo, o que afirmo é que tal regime se torna ineficaz quando não há um esclarecimento da população. A democracia em um país de analfabetos políticos é tão corrupta e autoritária quanto a pior das tiranias.

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