Contos e lendas da mitologia grega

Parece cada dia mais complicados para os jovens entenderem no sentido histórico, antropológico sociológico o que é um mito e o que ele representa dentro da sociedade no qual foi criado, já escrevi aqui sobre o significado do mito em Claude Lévi-Strauss, boa parte da noção que tenho desse assunto, devo a esse autor e também J. P. Vernant e Mircea Eliade.

Escuto muito as pessoas dizerem que o mito é uma mentira, algo fantasioso sem relevância, essa compreensão como já esclareci no outro post é no mínimo distorcida.

Poucos se aventuram a escrever em uma linguagem acessível aos jovens sobre mito, o que dificulta muito a compreensão dos mesmos sobre esse assunto. Uma alternativa de leitura é o livro do Claude Pouzadoux - Contos e lendas da mitologia grega que em uma linguagem acessível e explica grande parte dos contos da mitologia grega. Abaixo coloco um pequeno trecho do livro contanto a história de Jasão.


JASÃO
Jasão era filho de Éson. Passou a infância na Tessália, numa gruta do monte Pélion, e foi educado pelo centauro1 Quíron. Assim, cresceu longe das cidades e revelou grandes aptidões: sabia manejar o arado e arremessar dardos, e vencia qualquer um na corrida. Tornou-se forte em contato com a natureza, percorrendo todos os dias os bosques e os vales.
Quando ele ficou adulto, seu pai achou melhor lhe revelar sua verdadeira condição:
"Querido filho, seu lugar não é aqui. Um destino prestigioso o aguarda no trono da cidade de Iolco. Eu era o legítimo soberano dela até meu meio-irmão Pélias me destronar. Já é tempo de você ir à corte e reclamar o que lhe pertence."

Surpreso com a notícia, Jasão fez o que disse o pai. Cobrindo os ombros com uma pele de animal, abraçou seus velhos pais e tomou o caminho da cidade.

Ao chegar ao vale, foi detido por um rio de águas profundas. Estava examinando os arredores à procura de uma passagem, quando viu, perto dele, uma velhinha que não ouvira se aproximar.

"Poderoso senhor", disse ela com voz trêmula, "pode me ajudar a atravessar o rio? Minhas forças não permitem que eu enfrente a violência da correnteza."
"Não é que me recuse a ajudá-la", respondeu o rapaz, surpreso com a aparição. "É que só tenho minhas costas a lhe oferecer, e nenhuma certeza de que chegarei são e salvo à outra margem."
Sem levar em conta a hesitação dele, a velhinha subiu nas costas de Jasão. A água gelada atingiu rapidamente a altura do queixo do jovem, que engoliu água várias vezes, pois tinha sobre si o peso da passageira, cujas roupas encharcadas o empurravam para o fundo. Graças a um grande esforço, ele conseguiu lutar contra a correnteza. Finalmente, alcançou a oposta e desabou na terra úmida.

Quando recobrou o fôlego, procurou sua companheira de travessia. Em vez da velhinha, deu com uma silhueta esguia, trajando um elegante vestido púrpura.



A cor do tecido contrastava com o brilho de uma pele branca, realçada por uma abundante cabeleira castanha e olhos cor de esmeralda. O rapaz ficou mudo diante daquele prodígio.
Antecipando-se às perguntas, a mulher tomou a palavra:
"Sua generosidade iguala sua nobreza. Você não temeu perder a vida para ajudar uma pobre velhinha. Esse teste me permitiu conhecê-lo melhor. Saiba que, a partir de agora, será protegido por Hera, esposa de Zeus, em recompensa à sua coragem. Vá, siga seu caminho, que duras provas o esperam."
Mal a deusa terminou essa frase, sua imagem se turvou, e ela desapareceu. Julgando-se vítima de uma miragem, o rapaz tentou encontrar ao redor algum indício da presença divina. Já não dava para ouvir nenhum barulho, nem mesmo o do movimento das águas. Aliás, a violência destas cessara de repente, e a água, agora clara, corria calma entre grandes pedras. Jasão notou que havia perdido uma sandália na travessia. Mas foi em frente, sem sentir as pedras do caminho.

Assim, descalço, atravessou as portas da cidade ante o olhar inquieto dos habitantes. O homem a quem perguntou onde ficava o palácio apontou a direção com um gesto furtivo, depois saiu correndo. As pessoas se aglomeravam à sua passagem. Todo mundo olhava para o seu pé descalço. Jasão sentia muito se apresentar daquele jeito, mas também não achava que uma sandália a menos fosse um problema tão grande. É que ele ignorava a importância do detalhe para a cidade.

Alguns anos antes, logo que se apoderou do trono, Pélias quis saber quanto tempo duraria o seu reinado. Um oráculo lhe disse então que desconfiasse de um homem com um pé descalço. O tempo passou sem que se pensasse mais na estranha profecia até o dia em que Jasão entrou na cidade.

A notícia já se espalhara por toda parte quando ele chegou ao palácio. Sem saber que se tratava do sobrinho, Pélias observou em primeiro lugar o sinal anunciado pelo destino. Em pânico, perguntou qual a origem de Jasão. Este não lhe escondeu nada e o informou da finalidade da sua visita. Antes de responder a seu pedido, Pélias lhe fez uma derradeira pergunta:
"Na sua opinião, quem é digno de governar o reino?"
"O homem que trouxer o Tosão de Ouro", disse o rapaz sem pensar.
Seu tio o levou ao pé da letra:
''Pois bem, vá buscar o Tosão se pretende governar em meu lugar. Tem um mês para se preparar para essa longa viagem. Leve junto os companheiros que quiser e me peça tudo o que necessitar."

Pélias pensava atenuar, com essa generosidade, o rigor da prova que impusera ao sobrinho.
Jasão foi o primeiro a ficar surpreso por ter dado aquela resposta, que sem dúvida lhe fora soprada por alguma divindade. Aceitando o desafio, iniciou os preparativos para sua expedição.



PARTIDA PARA A CÓLQUIDA

Ninguém ainda havia ido tão longe no mar. A navegação estava apenas engatinhando, e os navegantes raramente se distanciavam da costa. A construção da nau para essa grande aventura, Jasão confiou a Argos, um célebre arquiteto, que contou com a ajuda de Atena.

O casco foi feito de madeira do Pélion, e um pedaço do carvalho sagrado de Dodona foi reservado para a proa. A construção durou um mês, durante o qual a notícia da formidável expedição à Cólquida se espalhou pela Grécia. Cinqüenta heróis gregos responderam ao chamado de Jasão e se reuniram para embarcar na nau Argo, batizada com o nome do arquiteto. Os que participaram da expedição foram denominados "argonautas".

Tífis, que aprendera com Atena a arte da navegação, foi o piloto. Orfeu, músico e poeta vindo da Trácia, juntou-se a eles. Com os acordes da sua lira, ele sabia encantar os homens e os animais. Sua arte iria ser muito útil durante a viagem. A tripulação compreendia também Castor e Pólux, irmãos de Helena. A lista completa dos heróis que tomaram lugar nos bancos de remo é extensa demais para se reproduzir aqui.

Os expedicionários ofereceram sacrifícios a Apolo e deixaram o golfo de Pagasai, ao sul da Tessália, não longe de Iolco. Aproveitando um vento favorável, a nau se fez ao mar.

O começo da travessia transcorreu sem problemas. Nas escalas nas ilhas, os argonautas recebiam uma acolhida calorosa. Depois o mar passou a ficar mais e mais agitado. As tempestades se sucederam, obrigando-os às vezes a voltar para trás. Uma dessas voltas teve tristes conseqüências.

Eles aportaram em plena noite na costa da ilha de Cizico, cujo rei lhes oferecera hospitalidade alguns dias antes. Na escuridão, seus habitantes, os dolíones, tomaram-nos por piratas e os atacaram. Os heróis revidaram, sem reconhecer os anfitriões da véspera. De manhã, os gregos tinham vencido, e Jasão se deu conta de que havia matado o próprio rei. Lamentos e soluços se fizeram ouvir nos dois lados. Os argonautas homenagearam o rei com esplêndidos funerais. Em seguida, com o coração pesado, partiram novamente. Curvados sobre os remos, os heróis nem mesmo se encantavam com as melodias que Orfeu entoava para marcar a cadência das remadas.

Em virtude das dificuldades crescentes sentiam que estavam chegando a seu destino. Travaram vários combates mortais e enfrentaram muitas outras tempestades violentas. Uma delas os forçou a fazer escala na costa trácia, na margem européia do Helesponto.

Vivia ali Fineu, um adivinho cego que os deuses haviam afligido com uma terrível maldição. Cada vez que ele era presenteado com pratos de comida, as Harpias, aves com cabeça de mulher, precipitavam-se para lhe roubar a refeição e emporcalhá-la com seus excrementos.
Os gregos o abordaram para conhecer o futuro de sua expedição pouco antes de transporem a perigosa passagem do Bósforo, mas o infeliz velhote impôs uma condição: "Concordo em revelar o que sei sobre a continuação da aventura de vocês se me livrarem desses bichos abomináveis". Os argonautas aceitaram.

Quando as Harpias investiram contra o velho, Calais e Zetes, dois heróis alados, lançaram-se em sua perseguição. Essa caçada extenuou as Harpias, que juraram renunciar aos ataques.
Fineu contou então aos heróis uma parte dos perigos que ainda deveriam enfrentar:
"Antes de chegar à Cólquida, terão que atravessar o estreito das Simplégades. Dois rochedos móveis assinalam sua entrada. Eles se afastam e se aproximam sem parar, triturando tudo o que os separa. Até hoje nenhuma nau conseguiu evitá-los. Para saber se os deuses são favoráveis, é só vocês soltarem uma pomba. Se ela passar sem problemas, poderão ir atrás dela; se não, terão que dar meia-volta. E, agora, boa viagem!"

Tão perto do fim, os gregos esperavam não ter que dar meia-volta. Seguiram à risca os conselhos do sábio adivinho e se mantiveram longe dos rochedos. A pomba levantou vôo, e de repente um grito de alegria ecoou: ela atravessara o estreito... perdendo somente algumas penas.

Por sua vez, a nau se preparou para a passagem. Os remadores concentraram forças enquanto esperavam os rochedos se afastarem. Assim que o espaço foi suficiente, enfiaram como um só homem os remos nas ondas. A nau saltou sobre as águas e venceu os recifes. Logo depois, ouviu-se um estrondo formidável: a passagem acabava de se fechar bem atrás da nau, danificando a popa, como fizera com a cauda da pomba.

Diante deles se abria enfim o mar Negro. Atravessaram esse mar costeando as montanhas do Cáucaso e chegaram à Cólquida. Foi com alegria que saudaram a terra pela qual haviam enfrentado tantos perigos. Enquanto os companheiros descansavam, Jasão foi encontrar Eetes e lhe expôs o objetivo da sua missão.



O PREÇO DO TOSÃO

Embora visse com maus olhos a expedição, o rei não o demonstrou. Fingiu aceitar o pedido que Jasão lhe fez, mas impôs algumas condições:
"Você pode levar o Tosão de Ouro se sair vencedor em duas provas. A primeira consiste em domar dois touros que Hefesto me deu e nos quais nunca se pôs uma canga.1 Depois, com eles, terá que arar um campo onde semeará os dentes de um dragão. Não direi mais nada. Você saberá a continuação no momento oportuno."

Um tanto perplexo, Jasão voltou para a praia, onde se preparava para descansar urna noite antes de enfrentar as provas. Mal ele saiu do palácio, uma moça lhe fez sinal para que se aproximasse.

"Bom dia, Jasão. Sou Medéia, filha do rei. Ouvi a conversa de vocês e vim lhe oferecer minha ajuda. Meu pai não disse tudo: os touros cospem fogo pelas ventas. Mas conheço um ungüento que permitirá a você enfrentá-los sem perigo. Depois, cuidado! Vai ver sair da terra guerreiros armados de bronze. Sozinho contra todos, você não tem chance. Jogue então uma pedra entre eles. Vão se precipitar para pegá-la e se matarão uns aos outros."
Comovido com a oferta, Jasão falou:
"Aceito com prazer sua ajuda. Sem você, estaria perdido. O que posso lhe oferecer em troca?"
A princesa respondeu sem hesitar:
"Case-se comigo e me leve para a Grécia." O ar decidido de Medéia impressionou Jasão. Logo lhe ocorreu que a moça poderia ser útil na travessia de volta. Além do mais, Jasão não ficara indiferente à sua beleza. Ela, por sua vez, tinha se apaixonado à primeira vista pelo herói, cuja coragem a sensibilizou. Separaram-se com promessas.

No dia seguinte, uma multidão de espectadores estava reunida no local da prova.


O próprio rei se encontrava ali, rodeado por seus guardas. A um sinal dele, fizeram entrar os touros de casco de bronze. Quando estes viram Jasão se aproximar, deram mugidos que gelaram a assistência. O herói os enfrentou. O sopro dos bichos não queimava seu corpo besuntado com o ungüento da maga. Jasão avançou na direção deles com autoridade. Os touros não estavam acostumados a ver um homem tão de perto. Por isso, ficaram imóveis quando Jasão lhes acariciou o pescoço e pôs a canga neles. Ufa! Passara com sucesso pela primeira prova. O clamor dos companheiros redobrou a coragem do herói.

Uma vez atrelados, os dois colossos puxaram o arado pelo solo virgem da planície. Jasão pegou num capacete os dentes do dragão e os semeou no campo lavrado. No mesmo instante, a terra úmida deu figura humana a essas sementes. Surgiram do solo guerreiros brandindo armas contra o herói. O medo tomou conta dos espectadores e lhes impôs silêncio. Medéia empalideceu e teve que sentar. Sozinho diante de um exército inteiro, Jasão não perdeu o sangue-frio. Lembrou-se dos conselhos... abaixou-se devagar, sem tirar os olhos de seus adversários ... apanhou uma pedra pesadíssima e, bruscamente, atirou-a com toda a força no meio dos inimigos. O furor guerreiro logo se virou contra eles próprios, que pereceram sob os golpes que se infligiram mutuamente.

Todo mundo felicitou o vencedor. Jasão reclamou o Tosão de Ouro, mas Eetes, furioso com o resultado, mandou que ele mesmo fosse buscá-lo.

Graças às poções mágicas de Medéia, o herói adormeceu o guardião pavoroso, apoderou-se do Tosão e voltou correndo para a nau. Todos embarcaram imediatamente, levando Medéia e seu jovem irmão Absirto.

Em face da traição da filha, o rei mobilizou seus melhores soldados e saiu ao encalço dos gregos. Estava quase alcançando-os, quando Medéia pôs em execução um plano cruel, destinado a cessar a perseguição. Atraiu o irmão à popa da nau e o degolou. Cortou-o então em pedaços, que jogou no mar. O infeliz pai se demorou catando os restos do filho e se deixou ficar para trás. A nau Argo rumou a toda a velocidade para a Grécia.

A travessia foi repleta de perigos, e chegou a haver mortes. Os navegantes descobriram costas inexploradas e novas rotas, marcando sempre sua passagem com um templo ou uma estátua consagrada a uma divindade que os havia protegido.

Enfim, quatro meses depois de partir, a nau entrou no porto de Iolco. Terminada a expedição, os argonautas se separaram, saindo cada qual em busca de novas aventuras.

UMA ESPOSA PERIGOSA

E Jasão presenteou o rei com o Tosão de Ouro, o qual lhe permitia obter o trono. Pélias, que já estava velho, foi obrigado a aceitar. Essa recompensa merecida não bastava, porém, para o herói, que não esquecera o exílio do pai... Para ajudá-lo na vingança, Medéia se valeu de seus poderes mágicos.

Desde que chegara a Iolco, a astuciosa maga soubera conquistar a confiança das filhas de Pélias. Durante uma conversa, re velou-lhes que podia rejuvenescer qualquer criatura.
"Cara Medéia", perguntaram-lhe as jovens, "você seria capaz de realizar esse prodígio com nosso pai querido? Estamos muito tristes vendo-o velho e tão próximo da morte!"

Medéia se fez um pouco de rogada, depois se submeteu à vontade delas. Primeiro tentou a experiência num carneiro velho. Num caldeirão, pôs água para ferver juntamente com ervas mágicas; em seguida, jogou lá dentro o animal que havia cortado previamente em pedaços. O milagre então se produziu. Da espuma fervente surgiu um lindo cordeirinho, que começou a balir. As moças, maravilhadas, aplaudiram Medéia e lhe pediram que fizesse a mesma coisa com Pélias.

"Vocês é que têm que rejuvenescer seu pai. É só repetirem exatamente meus gestos."
Elas correram então ao quarto onde o pai dormia.

O caldeirão estava pronto, e as ervas já difundiam seu perfume no palácio. Mas, ai!, o prodígio não se realizou. Os pedaços sangrentos do velho rei ferveram na água fumegante, e nada! As pobres coitadas se deram conta do erro que tinham cometido e desesperadas, abriram seu próprio peito.

Jasão felicitou Medéia, mas, no seu íntimo, começava a se preocupar com os terríveis poderes da maga... Os esposos nem tiveram tempo de desfrutar a vitória, porque os cidadãos de Iolco, horrorizados com o crime, expulsaram-nos da cidade, e eles tiveram que se refugiar em Corinto.

Durante dez anos, viveram felizes na corte do rei Creonte, e Medéia deu dois filhos ao marido. Mas uma idéia perturbava Jasão. Seus filhos nunca poderiam ser reis, porque a mãe deles era uma bárbara.1 Precisava ter outros, se possível com uma princesa de sangue grego. Creúsa, filha do rei de Corinto, parecia feita para esse papel.

Jasão repudiou Medéia e se preparou para casar com Creúsa. Louca de ciúme e de dor, a esposa abandonada maquinou a vingança mais terrível. Mandou à noiva um vestido embebido de veneno. Logo que o pôs, a princesa morreu num sofrimento abominável. O fogo que a consumiu se espalhou pelo palácio, provocando também a morte do rei. Decidida a destruir tudo o que rodeava o esposo ingrato, Medéia assassinou seus próprios filhos. Deixou a cidade, que estava em luto por causa de seus crimes, e partiu para sempre da região num carro puxado por dragões alados.

Quanto a Jasão, uma triste vida o esperava como preço da sua perfídia. Um dia, quando ele andava pela praia perto da querida nau, que lhe recordava um tempo feliz, uma antiga profecia se realizou. Predissera-se que a nau causaria sua desgraça. Tendo sobrevivido aos perigos da expedição, Jasão pensava estar ao abrigo dessa ameaça. Mal teve tempo de erguer os olhos para ver o mastro caindo sobre ele. Assim terminava a história de um maiores aventureiros.

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