Al Farabi e a filosofia do Islã

Na semana passada, apresentei na faculdade um trabalho sobre a filosofia árabe, mais precisamente sobre Al Farabi, figura importante na idade média que antes da graduação eu nem sabia que existiu, do trabalho resultou um texto que é um pequeno esboço de um estudo que pretendo realizar com mais profundidade. Abaixo o texto que mencionei.

Al Farabi e a filosofia do Islã

INTRODUÇÃO

A concepção de um sistema filosófico que tenta compreender a realidade em que o filósofo está inserido não é uma tarefa fácil. De igual proporção em dificuldade, é a tentativa de compreensão desses sistemas filosóficos por outros filósofos, distantes no tempo ou no espaço ou ainda, às vezes em ambos.

A tarefa que nos cabe nesse texto espelha um pouco da dificuldade que citamos anteriormente, pois nosso objetivo é trazer à luz algumas questões obre a filosofia de Al Farabi, célebre entre os mulçumanos, este filósofo teve uma importância capital também na filosofia ocidental.

Como dito, os obstáculos do tempo e do espaço impõem limitações ao nosso trabalho e a essas limitações juntam-se outras algumas mais severas outras nem tanto. Podemos citar por exemplo a falta de obras traduzidas de Al Farabi para a nossa língua, sendo que dispomos somente de pequenos fragmentos de textos em português e o restante, as obras completas , em francês e espanhol. No entanto, não é a língua nosso maior entrave e sim, a cultura e o modo que olhamos para o oriente médio e próximo, fomos condicionados a colocar uma distância muito maior do que a que realmente existe entre nós e os árabo-islâmicos e entre esses e os gregos, pois quando dizemos que a origem do pensamento ocidental está na Grécia Antiga, estamos negando de antemão a imensa relação entre gregos, árabes e mulçumanos, além de ignorar a influência do resultado dessas relações no ocidente medieval católico. 

Diante do problema colocado no parágrafo anterior, faz-se necessário antes mesmo de adentramos na filosofia de Al farabi, uma contextualização histórica que nos permita uma melhor compreensão em relação ao oriente próximo, pois é a partir dela que esboçaremos nossas primeiras tentativas de compreensão do pensamento de Al Farabi.


CONTEXTO HISTÓRICO

De acordo com Libera (p. 61 - 62, 1998) quando os árabes tomaram conta das regiões que vão da Pérsia até o Egito, não encontraram um mundo morto no que diz respeito à filosofia, muito pelo contrário, a filosofia pagã encontrava-se muito ativa, assim como também a dos cristãos.

Com a expansão do império islâmico e se entendermos o islã como uma religião que só possuí sentido em comunidade, com a formação de seu Estado, se assim podemos chamar, que é entendido através da centralização do pensamento, inclusive o religioso, tudo no caráter político. Sendo assim se mostrava necessário estabelecer ferramentas que possibilitassem um controle mais eficaz que a força física sobre os povos conquistados e que possibilitasse a sobrevivência do islã nas suas novas terras, diante da instabilidade das guerras e dos sucessivos movimentos de conquista e reconquista dos povos dessas regiões.

Foi na filosofia que essa ferramenta se mostrou fortemente eficaz, além de seu caráter reflexivo ela foi utilizada na prática política como uma das poucas ferramentas capazes de defender a manutenção da ordem na recente configuração dessa nova comunidade. Como nos relata Libera (p.62, 1998):

Enquanto o ocidente estava filosoficamente mergulhado em trevas, a filosofia pôde seguir, nas terras no Islã, a linha de todas as suas histórias anteriores para formar sua própria história: uma história mulçumana, obviamente, mas também uma história cristão e uma história judaica. A terra do Islã dotou o Islã de uma filosofia, sua filosofia, ou melhor, suas filosofias – as filosofias islâmicas -; estimulou e provocou seus teólogos; também acolheu as filosofias dos outros, as diversas formas de filosofia pagã e de filosofia monoteísta, seus desenvolvimentos internos, suas crises, suas sínteses e seus fracassos [...].

Acertadamente Libera (1998) ao tratar do da filosofia no Islã Oriental, nos remete a uma filosofia no Islã e outra do Islã, por muito tempo a filosofia do Islã foi a filosofia de muitos outros povos também e não uma filosofia puramente islâmica se que essa chegou um dia a existir.

A sobrevivência do paganismo em cidades antigas como Harran e o acolhimento dos islâmicos pelos cristãos siro-persas que viam o domínio do islã muito mais como uma libertação deu a filosofia desse tempo, sob o domínio dos Omíadas, segundo Libera (p.70, 1998), um caráter essencialmente não mulçumana, pois é pagã, com o restos da comunidade filosofia de Harran , onde se tinham refugiados os últimos filósofos atenienses; é cristã, com o estudo dos textos lógicos de Aristóteles desenvolvidos nos conventos jacobitas.”

Podemos dizer que nessa época, séculos VI e VII, está ocorrendo com o Islã um fenômeno de aculturação e aos poucos, pensadores de diversas regiões vão contribuir para a construção de uma filosofia Islâmica que em um sentido se aproximará da teologia na tentativa de validar os ensinamentos do Alcorão e em outro sentido tomará um caráter peripatético com os estudo da lógica de Aristóteles preocupação com a questão do ser.

O contato entre vários intelectuais de diferentes culturas e regiões em terras do Islã e as disputas fervorosas acerca de questões religiosos, contribuíram em muito para a formação de uma escola de “teólogos” mulçumanos, os primeiros mutakallimûm que em muito auxiliaram no desenvolvimentos da filosofia que podemos chamar de filosofia do Islã.

Nos contatos intelectuais ou nas polêmicas religiosas dessa época, as grandes questões especialmente debatidas eram a predestinação, a criação do Corão e os atributos divinos. Pouco a pouco foi se formando uma verdadeira escola de “teólogos” muçulmanos, os primeiros mutakallimûn (derivado de kalâm) conhecidos por mu’tazila. (SIDARUS, p.10, 2009)

De acordo com Libera (p.77, 1998), é na Era Abássida que se desenvolve “um dos mais ricos períodos intelectuais que o Oriente muçulmano e o Oriente cristão conheceram” e, de acordo com esse Autor, é nessa época, mais precisamente no século IX que nasce uma verdadeira filosofia árabe e se multiplicam as versões de textos filosóficos em siríaco e de forma cada vez mais crescente em árabe.

É nessa época das crescentes traduções das obras de Aristóteles e da veiculação confusa das Enéadas de Plotino que vive Al farabi.


AL FARABI

Ainda muito pouco se sabe sobre esse filósofo no Ocidente e a maneira como suas obras são abordadas é tão múltipla como a forma de escrever o nome pelo qual ficou conhecido (Al Farabi, Alfarabi, Al-Farabi), no entanto diante das controvérsias a cerca desse pensador uma certeza se sobressai: a importância dele para o mundo árabe e para a filosofia medieval, como nos diz Libera (p.113, 1998), “ele está na origem dos principais desenvolvimentos que a filosofia grega conheceu nas terras do islã”.

De acordo com Abbagnano (p. 114, 1999), Al Farabi, conhecido assim por ser natural da cidade de Farab, foi célebre entre os mulçumanos e deu continuidade a tradição enciclopedista de Al-Kindi, estudou medicina, ciências e gramática árabe e segundo Libera (p.113, 1998) era conhecido como “Segundo Mestre”, iniciou sua carreira na Bagdá abássida e morreu em dezembro de 950 em Damasco.

Versado no Platonismo e profundo conhecedor das obras de Aristóteles, Al Farabi não foi de importância somente para o mundo Árabe, mas também essencial para o pensamento cristão medieval .

Sua contribuição na política não foi menor que na filosofia, escreveu sua obra prima nesse sentido intitulada o Tratado das opiniões às quais aderem os habitantes da cidade ideal, na qual, segundo Libera (1998), Al farabi adapta a teoria do filósofo-rei ao pensamento político mulçumano. 

Ainda segundo Libera (p.113, 1998), Al Farabi exerce profunda influência no pensamento medieval, do qual a ele devemos três elementos fundamentais: a distinção entre essência e existência, a representação do universo fundamentada na adaptação da cosmologia de Aristóteles e uma síntese original do empirismo aristotélico e da teoria platônica das idéias, nesse sentido, temos a harmonização do pensamento aristotélico com o platonismo.

Quanto a sua produção intelectual, Al farabi comentou uma série de obras de Aristóteles e teve uma vasta produção no campo da filosofia sendo algumas de suas obras: Catálogo das Ciências , Sobre o Significado da palavra inteligência, Sobre as opiniões dos membros da cidade ideal, O objetivo da Metafísica e sobre o que se deve saber antes de estudar filosofia.


AL FARABI E A CIDADE IDEAL

Vivendo em uma época em que se faziam presentes, dentro de um mesmo território mulçumano, diferentes culturas, al Farabi desenvolve um pensamento com o objetivo de refletir sobre conflitos existentes na sociedade em que estava situado. Além do mais, na época em que Al Farabi vive, a maioria das traduções das Obras gregas para a língua árabe já haviam sido concluídas, portanto esse filósofo direcionou sua atenção uma preocupação quase que exclusiva com a temática filosófica.

Diante disso Al Farabi realiza diversas reflexões e uma delas, destacada aqui é a reflexão sobre a cidade. No “Livro das Opiniões dos Habitantes da Cidade Ideal”, Al Farabi desenvolve um discurso, mas também faz uma reflexão política sobre o mundo árabe e islâmico, com destaque a importância da razão, o discurso político não é tão perceptível com pode-se presumir, é nessa obra que o platonismo e o aristotelismo se harmonizam, porém mão podemos negar um direcionamento desse discurso para a realidade islâmica, colocando a política também como uma dimensão do conhecimento, porém para alcançá-lo e necessário saber o que o homem é.

A ideia de unidade, de perfeição, de essência, existência tornam-se cruciais nessa obra de Al Farabi pois são esses conceitos que vão sustentar a supremacia da faculdade racional do homem pois Al Farabi afirma que é ela quem domina todas assim é objetivo do ser humano que todas as demais faculdades trabalhem para a razão.

Nos livro La ciudad Ideal (1995), Al farabi estabelece uma discusão a cerca do ser primeiro:

Del Ser primero procede todo Otto ser. Puesto , pues, que el Ser Primeiro tiene la existência que lê es própria, necessessariamente se sigue que de El provienen todos los demás seres cuya existência mo depende de la voluntad y libre arbítrio Del hombre y cada uno procede según su modo de ser: unos nos son percebidos por los sentidos, otros son conocidos mediante uma demostracioón apodícta. La entidad de lo que proviene de El, es a modo de emanación (o expansión) de su propia endentidad que da origem a otros seres, de manera que la entidad de otros seres según va emanando de la entidad del Ser Primero que subsiste[...].(AL FARABI, p.21, 1995)

De acordo com Libera (p. 114, 1998), essa emanação do Ser Primeiro é uma adaptação ontológica da noção de “processão” em Plotino.

Segundo Abbagnano (p. 116-117, 1999), nessa discussão, Al Farabi afirma que tudo que existe é possível ou necessário, colocando-nos novamente diante do problema da essência e da existência, diante disso podemos afirmar que uma coisa que é dotada de existência possível pode não existir, no entanto nunca poderemos afirmar o contrário, que uma coisa dotada de existência necessária possa não existir, pois o ser necessário é o que possuí uma verdadeira substância e é dele que nascem os vários intelectos que se relacionam entre si com a matéria e a forma. Assim, a primeira Inteligência é comum a todos os homens, mas ao mesmo tempo os transcende. O intelecto, por sua vez, é puramente potência, mas depois se atualiza quando se conecta com essa inteligência. 

Por isso constatamos com Al Farabi que se os homens fossem puramente inteligente, compreenderiam tudo de imediato, dessa forma, quanto mais aprendemos, mais estamos direcionados ao caminho do bem. Nesse sentido o intelecto é uma faculdade única, mas opera em duas instâncias: teórica e prática.

As instâncias do intelecto se mostram refletidas na Cidade Ideal, a busca do homem pela felicidade e a conseqüente convivência política demonstra não somente o caráter ideal da obra de Al Farabi, mas também a interpretação adaptada da cosmologia de Aristóteles, uma maior valorização da ação sem deixar de lado elementos fundamentais do platonismo como, por exemplo, a já citada teoria do filósofo-rei e também a equiparação e hierarquização da cidade de acordo com a organização que todo o ser está submetido, remetendo mais uma vez a ideia do ser necessário, superior nessa escala hierárquica ao ser possível.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como pudemos perceber nas considerações feitas a cerca de Al Farabi nesse texto - as dificuldades de referências e de fontes sobre esse pensador abre um leque ilimitado de abordagens, a maioria de caráter meramente especulativo, sentido que preferimos não tomar em nosso trabalho.

Essa breve revisão bibliográfica e a abordagem de uma obra direta do autor, cumpre por hora o objetivo que de início foi proposto por esse artigo que é de colocar algumas questões sobre Al Farabi, tornando mais claro a visão do leitor sobre a filosofia medieval no oriente.

Muitas das dificuldades iniciais para a realização desse trabalho foram superadas e algumas delas tornaram-se incentivos para as questões que ajudaram a levantar, problemas que alimentarão um trabalho de maior profundidade em uma oportunidade futura.


REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Trad. Armando Silva Carvalho. 5 ed. Lisboa: Presença, 1999.

AL FARABI. La ciudad ideal. Trad. Manoel Alonso Alonso. 2. ed. Madrid: Tecnos, 1995.

BONI, Luis Alberto de. Filosofia medieval: textos. 2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

LIBERA, Alain De. A filosofia medieval. São Paulo: Loyola, 1998.

SIDARUS, Adel. Filosofia árabo-islâmica. Covilhã: Lusofia, 2009.

Um comentário:

notasdedireito2013 disse...

Thomas Fleiner-Gerster, em sua obra intitulada Teoria Geral do Estado, expõe algumas ideias relativas ao monarca bom e ideal, valendo-se, para tanto, de escritores árabes como Ibn Abi'r-rabi' e Farabi. "A maior parte dos teóricos do Estado avaliaram (sic) a organização do Estado menos em razão das instituições que em função do caráter do chefe de Estado. (...) Esta tradição grega prolongou-se nos séculos VIII, IX e X d.C. especialmente nas doutrinas arábico-islâmicas. Assim, no século IX, Ibn Abi''r-rabi' exige do soberano que ele seja a melhor e a mais forte personalidade do país (...). Idéias semelhantes são expressas for Farabi (850-970 d.C.) que, 800 anos antes de Hobbes e 1.000 anos antes de Austin, antecipou o contrato social e da (sic) doutrina da soberania (SHERWANI, Hroon Khan apud FLEINER-GERSTER, Thomas).

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