Um fora de carnaval


Mangnus

Estava tocando mais uma daquelas marchinhas de carnaval que realmente eu não gosto e por isso faço questão de nem lembrar, mas foi no decorrer desta música que eu a vi na mesa ao lado com algumas amigas, dançava com tanta alegria e espontaneidade que me fez esquecer da tal marchinha e passei a acompanhar somente seus movimentos, meus olhos acompanhavam cada passo, cada expressão de seu rosto, foi o suficiente para eu não tirar os olhos da menina a tarde toda. No início Ela nem notou o assédio, nem mesmo com a minha pose de único galinho do quintal, uma mão no bolso e a outra na latinha de refrigerante.

Pensei em uma estratégia para chegar nela, a primeira que veio a mente foi a de apelar para o espírito solidário dos colegas, afinal ir a uma matinê de carnaval com um grupo de meninos tem que ter alguma vantagem, no entanto havia um risco e o risco era grande, pois a maior qualidade de meus amigos não era a cortesia e a maneira de se dirigirem às meninas quase sempre não era gentil, logo desisti de pedir ajuda aos meninos antes que todo o baile soubesse de forma escandalosa que eu estava a fim da moça.

Concentrei o pensamento em um esforço individual, era eu e mais ninguém, uma questão de honra!

Soltei a latinha de refrigerante sobre a mesa e comecei a caminhar em direção a Ela, a cada passo o coração acelerava, nunca fui o menino mais popular e sempre contei com a ajuda das amigas, mulher dobra outra mulher muito mais fácil que a gente imagina, mas agora não havia nenhuma colega por perto e eu caminhava sozinho, rumo ao desconhecido, rumo a glória! Será? O medo rondava a me desencorajar, era a vergonha de levar um “não” logo de cara, hesitei por uns instantes bem na frente da menina, de um lado o medo, do outro os cabelos dela radiantes como o sol e o seu perfume, eu já podia senti-lo...

- Pois não?

A frase interrompeu minha difícil decisão, era Ela se dirigindo a mim. Suei frio e a minha concentração foi por água abaixo, a música voltou a soar forte em meus ouvidos, outra marchinha ensurdecedora, pensei no que dizer e quando tentei abrir a boca Ela me puxou pela mão e fomos arrebatados por uma multidão que dançava e percorria o salão na forma de um trenzinho eu estava logo atrás dela, seu perfume era estonteante, bem que tentei acompanhar o ritmo da música, sem sucesso é claro. Minhas mãos tímidas e tremulas sobre o ombro da bela garota me denunciavam. Estava tudo perdido!

A música ficou mais ritmada, o trem acelerou e por azar, o meu maldito tênis desamarrou, tenta dançar com o tênis desamarrado, não tem como, mas eu não podia deixar a pista, não naquela hora, porém as pessoas dançavam cada vez mais rápidas e Ela também, uma de minhas mãos se soltou e eu já estava vendo tudo desmoronar até que mais uma vez Ela pegou em minha mão e a colocou em sua cintura, uma mão na cintura e outra no ombro que impasse para um menino tímido, não titubeei por muito tempo e levei a outra mão a cintura dela também.

Eu já havia ganhado a tarde graças a uma maldita marchinha, o que mais eu poderia querer? A noite já apontava lá fora e o número cada vez mais reduzido de pessoas sinalizava o fim do baile, estava ótimo ficar com as mãos na cintura dela, mas minhas pernas já não agüentavam mais dançar com o cadarço do tênis desamarrado, olhei para o vocalista da banda e com os olhos pedi por misericórdia uma pausa.

Ele me atendeu e foi melhor do que eu esperava, tocou aquele empurrãozinho que os meninos tímidos precisam chamado de música lenta, eu nem precisei pedir, Ela virou e colocou seus braços sobre o meu pescoço, seu rosto ficou roçando o meu ouvido a sensação foi tão boa que esqueci o descompasso habitual de minha dança. Os melhores três minutos dos meus treze anos!

Eu tinha feito tudo até ali sozinho e sem precisar dizer uma palavra. A música terminou e as pessoas começaram a deixar a pista, Ela não, continuou ali parada na minha frente com os braços em meu pescoço, tive de pensar rápido, mas pensar demais não presta, olhei para Ela e disse:

- Posso te dar um beijo?

Ela soltou o meu pescoço...

- Tenho que ir já está tarde. Beijo (no rosto).

Fiz tudo certo, até dizer uma frase. O silêncio me ensinou uma grande lição, foi nesse tarde que aprendi o melhor remédio para um tímido: a ação, pois tem coisas na vida que a gente não precisa pedir, é só fazer.

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