A Filosofia no banco dos réus


Nesta quarta-feira (17/02) começam as aulas no Estado de Santa Catarina, sou professor do Ensino Médio lecionando Filosofia, muitos dos alunos que encontrarei na sala de aula nunca ouviram falar de filosofia, outros julgam se tratar de uma "coisa de maluco", muitos foram ensinados até mesmo pelos pais que filosofia ou qualquer outra matéria que exija determinada reflexão são coisas para pessoas ociosas.

Mais uma vez o ano se inicia e milhares de professores vão às escolas tendo que explicar por que ensinar Filosofia, assim como àqueles que lutaram para a volta dessa disciplina para a grade nacional juntamente com a Sociologia tiveram que fazer perante o Estado.


A Filosofia retorna às escolas com um grande fardo nas costas: o de se explicar, de se fazer necessário, como se todo o conhecimento útil fosse concreto. Nunca vi os professores de matemática entrarem nas salas de aula e começarem a explicar por que é importante ensinar matemática. No início deste ano um colega de profissão me indagou se havia algum estudo que comprovasse que a saída da Filosofia das escolas havia reduzido a capacidade de pensar dos alunos, respirei fundo e perguntei a ele se havia algum estudo demonstrando que o aumento da carga horária de Língua Portuguesa e Matemática havia ampliado a capacidade dos alunos de pensar, houve um silêncio sepulcral na sala onde estávamos.

O conhecimento de uma disciplina por si só não leva o aluno a nada, isso não é diferente com a Filosofia, não é a toa que muitos educadores defendem a interdisciplinaridade, não há aprendizagem sem contextualização histórica, o homem é situado em determinado tempo e espaço e o conhecimento se constrói dentro desses eixos com maior ou menor grau de dificuldade dependendo da capacidade do indivíduo de ampliar sua visão de mundo, de compreender a sua própria realidade.

A filosofia não torna ao homem um super-homem, tomar conhecimento dela não torna o homem melhor, porém o torna consciente e se alguma pessoa decide ser mal, mesmo compreendendo o mundo em que vive ela fará maldades por sua vontade, não haverá ninguém para culpar. Bom ou mal o homem será autônomo em suas ações e pensamentos.

Autonomia, talvez seja essa a melhor palavra que defina a proposta da Filosofia atualmente nas escolas, mas a autonomia dos indivíduos não se constrói com apostilas ou discursos bem preparados, se constrói com engajamento de alunos, professores, pais e todos que sabem da importância da filosofia para a construção do conhecimento autônomo. Nesta quarta a filosofia estará novamente no banco dos réus eu estarei lá e como todo ano, espero que muitos venham em sua defesa.

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