As origens do Carnaval

TIEPOLO, Giovanni Domenico
Carnival Scene (The Minuet)

*"Esse Carnaval só dura do Natal até a Quaresma; metade do ano restante se passa lembrando o último Carnaval, a outra metade se esperando o Carnaval seguinte".

Pela citação acima podemos perceber que não estamos falando do Carnaval no Brasil, nem poderíamos se o nosso objetivo é traçar um perfil da cultura popular em que surgiu as grandes festas de Carnaval.


Ao falarmos de Carnaval somos direcionados primeiramente ao que a própria palavra sugere e lembra: carne, um festival da carne, não só no sentido literal mas também no simbólico, que abordaremos mais a frente.

As grandes festas de Carnaval que em parte influenciaram o aparecimento de outras similares no mundo inteiro ocorreram com mais força na região do mediterrâneo ao sul da Europa, elas influenciaram muitas festas contemporâneas, no entanto, não podemos dizer que o sentido dessas festas foi mantido.

O início da Idade Moderna a vida na Europa era de privações e economia o ano todo e o Carnaval era uma das poucas oportunidades, senão a única de extravagar, uma oposição a vida cotidiana, uma inversão de papéis sociais. Durante o Carnaval, o mundo estava de cabeça para baixo.

ALSLOOT, Denis van
Skating during Carnival
BRUEGEL, Pieter the Elder
The Fight between Carnival and Lent


Nas festas de Carnaval três elementos se faziam recorrentes: comida, sexo e violência. O primeiro desses três elementos, a comida, se fazia notar durante todo o período da festa, as pessoas gastavam em uma semana provisões que poderiam durar meses, comiam de tudo com ênfase para o consumo excessivo de carne que atingia seu auge na Terça-Feira Gorda.


"de tanto cozer, e grelhar, tanto torrar e tostar, tanto ensopar e fermentar, tanto assar, fritar, picar, cortar, trinchar, devorar e se entupir de à tripa forra que a gente acharia que as pessoas mandaram para a pança de uma só vez as provisões de dois meses, ou que lastrearam suas barrigas com carne suficiente para uma viagem até Constantinopla ou as Índias Ocidentais".


As bebidas também eram freqüentes, segundo o relato de um inglês na Rússia em época de Carnaval: "eles bebiam como se nunca mais fossem beber".

O segundo elemento dessa grande festa, era a violência mais ou menos institucionalizada, quase tudo era permitido sem que houvesse punições, em uma época onde o domínio da Igreja ainda era relevante, o Carnaval Funcionava como uma válvula de escape, as pessoas se insultavam, agrediam umas as outras com bexigas de porcos e outros partes de animais, além de atirar ovos, farinhas e outros objetos nos transeuntes. O empregado xingava o patrão, podia-se reclamar do governo e dos impostos, fantasiar-se satirizando a Igreja, o Rei e figuras que em outras épocas do ano poderiam render uma boa forca. No âmbito da violência se agrega a loucura que era o Carnaval, as pessoas invadiam casas de particulares, atiravam baldes de água e excrementos pelas sacadas, invertiam os papeis, homens vestidos de mulheres e mulheres vestidas de homem, haviam fantasia de clérigos, reis, cavaleiros, palhaços.


"papas, cardeais, monges, diabos, cortesãos, alerquins e magistrados, todos se misturavam numa mesma multidão promíscua".

DUYSTER, Willem Cornelisz.
Carnival Clowns


Não obstante os animais eram vítimas freqüentes da loucura do Carnaval:

"os cachorros podiam ser balançados de um lado para outro, dentro de cobertores, e os galos apedrejados até a morte.

Além disso a agressão verbal era outro tema recorrente, as pessoas trocavam insultos e cantavam, canções de duplo sentido.


"Era a hora de denunciar o vizinho como cornudo ou saco de pancada de sua mulher".


O terceiro elemento dessa festa louca era o sexo, presente de forma simbólica no sentido atribuído a carne e de forma literal nas ações dos participantes do Carnaval, figuras que representavam a virilidade e a força eram comumente apresentadas nas festas, símbolos fálicos desfilavam pelas ruas, mulheres solteiras eram vítimas da gozação dos menos controlados, animais como o galo e o porco representavam a luxúria e outros como o urso, representavam a força.


"O Carnaval não era apenas uma festa de sexo, mas também uma festa de agressão, destruição, profanação. De fato, talvez seja de se pensar no sexo como o meio-termo entre a comida e a violência".


Podemos pensar o carnaval como uma grande encenação, provida de uma certa organização mas que não sobreviveria sem a improvisação, era uma festa que rumava em oposição à vida cotidiana, era o contrário do tempo de privação que se aproximava: a Quaresma.

SANDRART, Joachim von
February



Portanto, o Carnaval representava o rejuvenescimento do ano e a preparação para os tempos difíceis que viriam a seguir e funcionava como uma válvula de escape para o psicológico coletivo no início da modernidade, daí tantos terem representado o mês de fevereiro e a prórpia figura do Carnaval como um homem gordo envolto em comidas e a Quaresma como uma senhora magra e velha. 

Resquícios dessa festa chegaram a nossa época e existem alguns corajosos que ainda os chamam de Carnaval.


*As citações e referências desse texto encontram-se em: BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna: Europa, 1500 - 1800. Tradução: Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

2 comentários:

Tiago Camilotti disse...

Caramba velho... Eu não sabia das origens do carnaval.

Muito bom mesmo. Parabéns pelo blog, já te aceitei no DiHitt.

Abraço e conta comigo, vlw

Célio Roberto Pereira disse...

Quem bom que pude acrescentar algo em seu conhecimento. Obrigado por me add no DiHIIT e vlote sempre ao Blog.

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