A educação não é um valor

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Paulo Ghiraldelli Jr.



A classe média carioca vestiu-se de branco e abraçou a Lagoa Rodrigo de Freitas. Era o movimento “eu sou da paz”. Lembram-se? A idéia era dizer “basta à violência”. O que queriam? Convencer os bandidos de pararem? Convencer as autoridades para “fazer algo”? Seja lá qual foi esse objetivo, era algo … “de classe média”. Isto é, tratava-se daquela coisa que oscila entre a leitura de Paulo Coelho e o voto nos conservadores para, depois, reclamar desses mesmos políticos. Isso passou.

Algo mais permanente, mas com um sentido parecido, é o Criança Esperança. Todo ano, também de branco, o exército da Rede Globo faz uma arrecadação monstruosa de dinheiro. Passado vinte anos, não é possível encontrar ninguém que diga: “eu estudei graças a um programa completo do Criança Esperança”. Não! Parece que o dinheiro é pulverizado em centenas de pequenas iniciativas que pouco ajudam qualquer criança que tenha alguma esperança. Compra-se uma brinquedoteca ali, faz-se um grupinho de dança acolá. Trata-se de um movimento … é, é isso – “de classe média”.

Nos dois casos, há uma mistura de sobra de tempo livre dos envolvidos com um aparente grau de ingenuidade dos arrebanhados na população. Tudo fica televisivo porque em meio às pessoas comuns mesclam-se artistas globais.

Agora, com o “boom” do twitter, essa classe média encontrou seu reino. E enquanto é essa classe média que reina ali, até arrastada um pouco por seus filhos pré-adolescentes, vamos assistir a versão twitteira do “abraço da Lagoa” e do “Criança Esperança”. Pelo momento, trata-se da campanha “Doe um livro neste Natal”. A campanha já foi feita outros anos, por diversas iniciativas. No caso, esta que falo é a do twitter. Há quem já não faz outra coisa senão participar da campanha! Podemos achar uma boa iniciativa; todavia, não há como não dizer que é coisa … sim! É coisa “de classe média”.

Falta ator global? Neste caso falta. Ator global não doa nada! E só participa de campanha quando ele puxa a fila. Ou quando, obrigado pelos patrões, serve lá de palhaço para qualquer coisa. Mas, fora esse detalhe, a questão é que a campanha é sintoma de um comportamento de determinado grupo de brasileiros que pensa ter os pés nó chão, mas não tem. Quase tem, mas não tem. São as pessoas que julgam tudo a partir do próprio mundo, sem considerar estatísticas, planos políticos ou visão teórica do Brasil. Elas possuem enorme boa vontade. Muito tempo livre. Mas … Quando se vai falar disso, essas pessoas se irritam. Claro, estão em uma campanha! Acham muito importante o que estão fazendo, porque há quem vá criticar?

Todavia, o problema é que o “Doe um livro neste Natal” funciona, em termos de sintoma, como o “abraço da Lagoa” e como o “Criança Esperança”. Na prática, é um esforço, certo gasto de energia, mas que não possui poder nenhum para alterar alguma coisa. Por uma razão simples: o Brasil se tornou um país aquém da generosidade dessas campanhas.

Vamos admitir, talvez erradamente, que a campanha não seja apenas a vontade de uma classe média, que mais compra livros que lê, de se desfazer de seus entulhos. Ora, se é assim, para quem vão esses livros? Vão para jovens que, em princípio, não teriam dinheiro para comprar livro. Isso, até os anos setenta para oitenta, talvez tivesse uma serventia, mas agora, diante de nossas estatísticas e do que ocorre no chão da escola, é difícil acreditar em algo útil nisso tudo. Vejamos. O INEP anunciou por esses dias que somente 25% dos alfabetizados entendem o que lêem, e isso em caso de pequenos textos. Textos longos, então, nem pensar. Livros? Meu Deus, nesse caso, o índice é ainda menor. Portanto, tudo indica que esses livros vão para o mesmo lugar do dinheiro do Criança Esperança, ou seja, a pulverização.

A objeção a isso, dos doadores, é que “o primeiro passo” foi dado. Tendo os livros em mãos, os que irão aprendendo a ler, poderão sacar os livros e, ainda que de modo capenga, aqueles que gostam de ler poderão ler. Essa classe média imagina que a leitura seja algo surgido como apareceu para alguns de seus avós ou bisavós analfabetos ou semi-alfabetizados. Sim, pensa-se que hoje, os que não entendem o que lêem, fazem parte de um grupo de pessoas com alguma inserção em um mundo cultural que dê margem para a cultura letrada, e que o que falta a eles é apenas o trânsito de um tipo de dialeto de origem para o português. Mas não! Os que são alfabetizados hoje, e que não lêem, não podem ser comparados com determinados avós e bisavós da classe média twitteira.

O que se desconhece é que a hora-aula do professor no Brasil, no ensino médio, está em torno de menos de 7 reais. Este é o valor da hora-aula de São Paulo. No Pará, é cinco reais. Ou seja, não está havendo educação nenhuma nas escolas públicas. Não ocorre qualquer educação. Por isso mesmo, não há professores disponíveis com gosto pelo livro. Nossa juventude não lê porque ela só tem a escola pública, e nada mais, para fazê-la ler e dar-lhe o gosto pela leitura. E esta escola pública não existe mais. A classe média faz tempo que colocou seus filhos na escola particular; essa escola nem sempre é boa, mas é existente. A escola pública, a 7 reais a hora-aula, é inexistente. Pode-se colocar qualquer livro na mão dos jovens saídos da escola pública. Ele não abre. Está fora de cogitação que o livro doado possa despertá-lo para alguma coisa. As letras são confusas, a língua é ininteligível e, principalmente, história por história, há muitas nos morros e favelas mais interessantes. O jovem de classe média, no twitter, acha 140 caracteres muito, tanto é que ele enche de KKK e ahuahu para fechar o assunto. O jovem que freqüentou a escola pública, mesmo que tivesse Internet, está com dificuldade imensa em sair do Orkut e ir para o twitter, porque este tem alguns comandinhos em inglês.

A classe média não quer os livros? Por isso doa? Ela não os leu como diz? Talvez queira, mesmo, só se livrar deles. Afinal, se gostasse tanto de livro, não os doaria – não é verdade? Mas, o pior é que mesmo os que estão querendo, de fato, fazer algo significativo, nem sempre fazem idéia do Brasil para quem os livros seriam destinados. Não há mais o buraco da tomada para que o fio fique conectado. É isso que eles não entendem e, então, quando dizemos que eles fariam melhor se parassem com a esmola e se engajassem em um movimento de pressão política pelo professor, resmungam e se revoltam. Alguns, temendo ver em alertas como este meu sua perda do paraíso, se revoltam não contra os governos, mas contra mim. No fundo, fui eu quem tirou deles o gostinho deles de, nesse Natal, dar uma “esmola culta”, uma “esmola humanista” e, então, no ano próximo, continuar a reclamar do nosso país, dos políticos, da corrupção etc.

Não há como conquistar essa classe média, twitteira ou não, com artistas globais ou não, a qualquer tipo de movimento em favor da escola pública e do professor. Não! Topam qualquer assunto. Mas, quando chega nesse assunto, eles param. Alguns, inclusive, acreditam que está tudo equacionado ou pelo engodo promovido pela propaganda do MEC do Lula ou pelos rearranjos autoritários propostos pelas secretarias de educação. Neste último caso, São Paulo segue na frente, puxando o que há de pior na política educacional da Federação.

Sei que falo quase sozinho. Sei que muitos dos que ainda discutem educação, hoje em dia, querem apenas fazer um mestrado e um doutorado, mesmo que seja em Educação, para fugir do ensino fundamental e ir para o ensino superior. Mas, continuo falando sozinho. É mania. Filósofo tem disso!

Fonte: http://portal.filosofia.pro.br

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