Cultura e periferia: reflexões sobre conceitos e suas aplicações

Mapa-múndi indicando a proporção da população urbana de cada país que vive em favelas.

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Periferia e Cultura! Essas duas palavras tão faladas recentemente têm sido pautas constantes de discussões acadêmicas. O grande motivador do debate é o uso impróprio dos sinônimos de cada uma delas, o que acaba gerando distorções em torno dos conceitos. É comum ouvirmos a utilização do termo cultura em referência somente à arte e ao acumulo de conhecimento, enquanto o significado antropológico da palavra dá conta de que cultura é sinônimo dos modos de vida de um povo, e, portanto, é produzida por todas as pessoas em sua interação.

A partir deste conceito, é possível perceber o quanto são preconceituosas colocações como, por exemplo: “Esta é uma forma de levar cultura à favela” ou “ As favelas são locais carentes de cultura”. Ambas as frases, encontradas tanto no cotidiano das pessoas quanto no dia-a-dia dos veículos de comunicação, refletem a absorção de um conceito equivocado de cultura, como explica José Márcio Barros, antropólogo e Diretor de Arte e Cultura da PUC Minas. “Cultura é tudo aquilo que é resultado da vida social, da aprendizagem, tudo aquilo que você adquire da sociedade é cultura”, define.

Mais do que a distorção de um conceito, as frases acima podem ser indício de uma ação etnocêntrica, aquela segundo a qual a cultura de uma das partes é sempre considerada melhor que a cultura alheia. “É uma visão etnocêntrica que gera essa idéia de só conceber a sua visão e seus próprios valores, vendo o diferente como desigual e inferior. Essa visão gera uma incapacidade de lidar com as diferenças e desigualdades”, esclarece o antropólogo.

É comum ouvirmos, em diversos locais, as pessoas dizendo que fulano ou beltrano não tem cultura. Este é um exemplo claro de ação preconceituosa, etnocêntrica como explica José Márcio Barros. “A exclusão de certas formas de fazer cultura acaba excluindo os sujeitos dessas formas. Essa frase de levar cultura à periferia mostra a idéia de que não há cultura e que os moradores desses locais não são realizadores de cultura. É uma dupla discriminação no sentido dos lugares e dos sujeitos”, considera o pesquisador.

A música, a dança, as artes plásticas, todas as manifestações artísticas encontradas nas vilas e favelas, o que inclui o funk, o pagode e o rap, fazem parte da produção cultural local, assim como as manifestações encontradas nos demais lugares fazem parte da cultura. No entanto, cultura não se restringe a arte, mas abrange diversos campos sociais. Caminhar, trabalhar, namorar, casar, estudar, cozinhar, tudo isto é cultura. “Essa forma de reduzir a cultura à arte, e mais do que isso, às belas artes é excludente no sentido que elimina uma série de outras manifestações, formas de pensar o mundo e os sujeitos. Os agentes dessas formas de pensar, agir e estar no mundo são excluídos, numa postura discriminatória”, explica José Márcio Barros.

Uma forma diferente de difundir o conceito de cultura

Para discutir o conceito de cultura na vertente da antropologia, os responsáveis pelos Aglomere-se Aqui!, programete de rádio do Projeto Redemuim, produziram um quadro no qual os entrevistados falam sobre suas práticas cotidianas. O resultado traz depoimentos do tipo “Eu acordo, como pão com queijo, tomo um banho, vou para escola. Depois da aula, volto em casa, tomo banho e vou para o estágio. No final de semana, quando chega a noite, passo um gel no cabelo, calço meu Nike shocks e vou pro baile funk”.

A jornalista conta que as distorções acerca do conceito e a necessidade de discuti-lo através do programete de rádio foram percebidos na convivência com os jovens. “Trata-se de um conceito ainda muito ligado à academia e às reflexões teóricas, que ainda não são muito familiares aos jovens que vivem experiências mais práticas do que reflexivas”, revela. “Contudo, esse quadro também vem se transformando aos poucos”, completa.

Não apenas o conceito de cultura pede reflexões, mas também o de periferia. O termo é comumente utilizado como sinônimo de favela. O que os pesquisadores observam é que os bairros periféricos onde a renda da população é mais alta, não são designados socialmente pelo termo periferia. “O conceito de periferia é reduzido ao distante, mas na cidade contemporânea não tem apenas um centro. Hoje o termo periferia diz respeito a lugares e sujeitos objetos de abandono das políticas”, constata o pesquisador. “A grande maioria das favelas está na zona sul, na zona leste, mas estão na periferia do ponto de vista econômico”, conclui.

O professor Jaílson produziu recentemente um verbete, que será publicado em enciclopédia, no qual define o termo periferia. O trecho a seguir, retirado do verbete, explica como a periferia é considerada, de forma preconceituosa, um problema social. “O espaço periférico é contraposto a um determinado ideal de urbano ou de civilização, vivenciado por uma pequena parcela dos habitantes da cidade ou da humanidade. Não é casual, então, que ela seja considerada uma disfunção, um problema que afeta a saúde da cidade e o mundo”.

Mais do que a transferência do caráter regional do conceito para o econômico, o que preocupa aos pesquisadores e pessoas que trabalham nas favelas é a relação do termo periferia com ausência. “A periferia não pode ser caracterizada pelas ausências, ela é sempre lembrada pelo que não tem. Cada vez mais tentamos olhar a periferia pela o parâmetro da presença”, diz Jailson Souza. O esforço para alterar a injustiça e a discriminação em relação ao que existe de fato nas favelas, na opinião de Jailson, tem surtido efeito. “A periferia não se caracteriza mais como um local visto pela ausência da cultura, mas como um espaço que constitui a cidade sob outra perspectiva”, constata. As frases destacadas abaixo fecham o verbete escrito por Jaílson, reafirmando o equivoco de se considerar a periferia um local de ausências.

Retirado daqui: http://www.favelaeissoai.com.br/noticias.php?cod=38

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