A música que você ouve corresponde ao que você fala?


Eu nasci ouvindo sertanejo e música gaúcha, era o que se curtia mais no interior, as letras falavam do cotidiano, da identidade com a terra e da simplicidade do sertanejo, não era esse sertanejo de mercado que se houve por aí...

Quando fui morar próximo ao centro tive contato com outros estilos musicais, cresci, saí do ensino médio e adentrei na faculdade, foi somente neste espaço que pude perceber o que a música representava para diferentes grupos, o que Legião Urbana representava para a classe média e como que se ouvia Raul da periferia ao centro, aprendi a gostar dos dois, mas não esqueci do sertanejo que ouvia quando criança.
Alguns dizem que isso faz parte do meu "mal gosto" musical, eu digo que o fato de eu não esquecer as músicas que ouvia quando menino se deve a minha vivência, me identifico com as letras, elas dizem respeito ao meu passado, fazem recordar.

A vivência, nossa experiência social determina também o que a gente ouve, quando mudei para um bairro mais afastado do centro, comecei a ver o mundo de outra forma, a música sertaneja mudou também e nem ela nem o rock nacional falavam da minha realidade, uma ou outra música desses estilos eram boas de dançar ou tinham uma melodia gostosa de ouvir, no entanto as letras pouco me diziam.

Foi nessa carência de identidade musical que um dia ouvi na casa de um vizinho uma certa música chamada "Nego Drama", meus amigos disseram que tal música já era velha e só o pessoal do "beco" que gostava. Velha ou não aquela música serviu como uma luva pra realidade do meu bairro, o rítimo ainda era desconhecido para mim mas as palavras não saiam da minha cabeça, que grupo era aquele?

Eram os Racionais Mc's e aquele rítimo era o Rap, falava de pobreza, violência e corrupção mas acima de tudo falava de consciência, de identidade com o lugar onde a gente mora, de luta pela música, me identifiquei com o Rap e acompanhei ele ser esmagado pelo funk e pelo hip hop de mercado, com letras vazias mas de rítimo alucinante, vi o pessoal da periferia destruir sua identidade musical, preferindo "rebolar" ao som do "pocotó" do que cantar aquilo que condiz com a sua realidade, o que ajudaria a criar uma consciência coletiva, imprescindível na luta contra injustiças sociais.

Mas o que me fez pensar mesmo sobre a importância da música como instrumento de socialização e identidade, foi o fato de me tornar professor e ver o hip hop ser assimilado por outras camadas sociais assim como havia ocorrido há muitas décadas com o samba, tem muito "playboy" que ouve Chamillionaire, SnoopDog, Eminem e não tem nem ideia do que esse rítimo um dia representou, porém, de outro lado não veja tantos assim curtindo Racionais, MV Bill, o rítimo do Rap não é tão atraente e a letras tem destino certo: é a periferia e ele só sobrevive se mantiver tal destino, é por isso que ainda é símbolo de resistência, de identidade cultural.

O que quero dizer com esse breve histórico do meu gosto musical é que as músicas que ouvi em todas as etapas da minha vida sempre tinham alguma coisa nas letras que eu me identificava, pode passar cinquenta anos que eu lembrarei delas, posso dizer que tenho um gosto musical e não é o que toca nas rádios atualmente, quando pergunto para um aluno que música ele curte há pelo menos cinco anos, poucos conseguem me responder, porque o que ouvem é música de mercado que nada diz e no próximo ano nem será lembrada.

O gosto musical muito nos diz sobre as pessoas, algumas são tão vazias quanto as músicas que houvem, com a diversificação das mídias reprodutoras de áudio os estilos musicais se alastraram e alcançaram a escola com grande força, o que percebo no ensino do Brasil é uma tentativa de barrar esse avanço, muitos professores proibem os alunos de ouvir musica em sala de aula esquecendo que ela também é uma forma de expressão sendo possível também aprender com ela.

Porém a solução do problema não está em proibir a música mas sim em saber o que e o porquê o jovem ouve ela, assim a música se torna um caminho para o professor chegar ao aluno e perceber de forma clara como a linguagem musical pode ajudar em sala de aula.

Mas isso dá certa quando não há preconceitos quanto ao estilo musical, quando falo de não ter preconceito é diferente de não ter preocupação com o que o jovem ouve, pode-se escutar de tudo mas é preciso saber o que cada música lhe diz. Não sou músico, pouco conheço sobre o assunto mas consigo ver claramente o que a maioria da sociedade me diz quando está cantando: nada!

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